Não há em nenhum momento, nada inativo no universo, e nenhum de nós pode demitir-se de agir constantemente pois nada no universo é independente das leis cósmicas.
Tudo é decidido pela Lei que opera o cosmos como totalidade.
Apesar de o universo ser impessoal, ele não é separado do indivíduo.
Mesmo que os nossos pés não se mexam, mesmo que não digamos uma palavra, isso não quer dizer que estamos inativos, pensamos ativamente.
Esta atividade não é um movimento físico, é uma vibração em nós e na atmosfera que conduz os aspetos da nossa individualidade. Cada pensamento, desejo ou aversão, cada ação é apenas a Natureza (Prakriti) movendo-se em si própria. O poder cósmico é o sujeito.
O propósito do cosmos é designado em nós para expressarmos o universal através da finitude.
Mas as qualidades que nos trazem estabilidade são as mesmas que nos limitam.
A vibração de todas as camadas da nossa personalidade, expressa a nossa tendência para transcender as limitações da finitude.
A natureza procede das leis do cosmos. Existe uma necessidade, uma gravidade física e psíquica, que nos leva a cooperar, a agir.
A ação é inseparável do Ser.
A ação é consequência da finitude de todas as entidades no universo.
Esta finitude em nós move-se constantemente à procura de transcender a sua limitação, porque a verdadeira natureza do finito não é a finitude.
A nossa finitude como indivíduos isolados prende-nos a agir compulsivamente em busca da estabilidade. O tipo de ação compulsiva é aquela que visa um objetivo pessoal e nos mantém reféns dos resultados.
O desejo pelos objetos finitos vem da incapacidade de como fenómenos finitos, repousarmos no infinito.
Toda a criação se move na direção da realização do absoluto.
Este movimento na direção dos objetos deve-se a uma afinidade inerente entre os sentidos e os objetos.
Na filosofia védica, todo o mundo manifesto físico ou mental é constituído ou regido pelas 3 forças da Natureza – os Gunas ou as qualidades de Rajas, Tamas e Sattva (Atividade, Resistência e Luminosidade).
Os 3 Gunas em nós são atraídos pelos 3 Gunas nos objetos.
Os Gunas movem-se nos próprios Gunas. ‘Gunāh guneshu vartante’ – Bhagavadgita
Um corpo é atraído por outro. Uma mente é atraída por outra.
Uma qualidade é atraída por outra.
São os 3 gunas nos nossos sentidos que agem sobre os gunas nos objetos dos sentidos. Todas as ações são ultimamente esta associação interna e externa entre os gunas da natureza.
Nós somos apenas uma onda. O objeto é apenas outra onda. Encontramo-nos porque entre nós há uma afinidade, uma similaridade de estrutura que é a totalidade.
Nós não somos os agentes da ação. Tudo acontece através de nós, não a nós.
O sujeito é o poder cósmico.
Para nos libertarmos da ação, temos de libertar-nos da individualidade em si.
Há um fator invisível entre o sujeito e o objeto, entre o agente e o fim. Esse fator invisível é o Divino, o nosso Eu mais elevado a chamar-nos para uma consciência maior. Esta divindade, este princípio maior contém a nossa finitude e a finitude de todos os objetos que desejamos e move-se visando a realização da totalidade através da limitação.
O que nos limita à finitude, não é a ação em si, mas os desejos individuais ou as tendências egoicas, os vásanas. É a ignorância sobre a natureza da ação e sobre a natureza da estabilidade que nos mantém insaciáveis e desapontados, presos na roda de nascimentos – samsara.
Tudo é a performance dos poderes cósmicos da Prakriti (Sattva, Rajas e Tamas), que agem de uma forma impessoal com um propósito Universal.
Todo o universo trabalha sem um sentido de individualidade em si.
Ele nem sabe que existimos individualmente e, no entanto, nós proclamamos a nossa independência e a individualidade das nossas ações.
A nossa existência é dirigida pelo propósito do cosmos que é o de resgatar esse desígnio divino em nós.
Não existe nada apenas para si. Tudo existe para tudo.
Quando entendo que o propósito da minha existência não sou eu, nenhuma ação é incorreta.
Quando entendo que a verdadeira motivação de todos os desejos é transcender a finitude, a necessidade do livre arbítrio deixa de ser importante porque não divido a experiência entre bom ou mau, não preciso escolher, nem decidir, porque o cosmos inteiro me conduz em cada ação, porque já não sou afetada pelo sucesso ou fracasso.
A intensidade do ego é o obstáculo. Ao identificar-se com os objetos, o ego move-se na sua direção como ancora de estabilidade para a sua identidade individual, provocando uma reação cósmica que provoca sofrimento e desequilíbrio.
Na cultura védica todas as ações são vividas como um sacrifício – Yajña Karma que visa tornar toda ação sagrada.
A ação é uma dedicação e não um meio para um fim individual.
Neste Yajña encontro-me em cada momento intensamente ativo, mas sempre testemunha contemplativa, com o foco principal dirigido ao fator divino, ao princípio criador, à consciência suprema que é a meta primordial da vida.
Controlar os sentidos pela força é impossível. Suprimir ou reprimir os desejos provoca uma reação e empurra essa vibração para o subconsciente.
A sublimação é o caminho do yoga, da ação como sacrifício da individualidade finita, até transcendermos a dualidade sujeito/objeto.
Sentidos, mente e intelecto unem-se numa chama única, purificando-se e extinguindo-se, terminando a identificação com os instrumentos dos sentidos e os objetos. Se preservarmos este sadhana, a desidentificação passará a ser uma vásana espontâneo, uma tendência satvica e seremos conduzidos pela vida.
As ações e planos desenrolam-se sem identificação. Temos o que precisamos em cada momento.
Enquanto oscilarmos entre ganhar ou perder, bloquearemos natureza da própria existência que é mover-se para reunir-se como totalidade.
Tornamo-nos mais fortes sublimando a mente. Ao sublimarmos os sentidos na mente, a mente no intelecto, o intelecto no espírito, encontramos a nossa raíz no espírito do cosmos. Refugiamo-nos na realidade última das coisas.
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