Yanantin – Dançando com a dualidade. A criação da vida na vida!

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Sem a totalidade – não existe nada. Sem o infinito – não existe o particular. Sem a relação, a comunidade – não existe o outro, o individuo.

Hoje trago-vos a visão de outra cosmologia que não a hindu. É a cosmologia andina. Não que eu domine os seus conceitos, mas gosto muito de escrever sobre o que me faz crescer, curar, transcender todas as crenças e caminhar o que sinto e a minha essência sem filtros. A lógica que vou encontrando é a lógica do coração e por isso, em humildade partilho.

O mundo andino vive o cosmos como um par de equivalências.

O principio da reciprocidade (Ayini) através da dualidade.

Não importa o que se faça, faça-se o que fizer, ali está Yanantin.

Tudo existe em par desde o início.

Não importa se é ele ou ela, a força da complementaridade criou a intensidade que o definiu.

Como uma essência em duplicado.

Quer vejas a ele ou vejas a ela, continuas a ter na tua frente a totalidade através de uma versão microcósmica do macrocosmos.

Este povo não se foca nas diferenças entre os pares, mas nas qualidades que apenas os dois juntos podem expressar.

Porque havemos de pensar em apegos quando esta ligação já existe no seu nível mais profundo e inquebrável. O apego e o sofrimento surgem quando queremos manter a ligação no seu aspeto superficial que é físico e não na essência ou na manifestação do absoluto através de uma pessoa.

Esta capacidade de amar o absoluto em cada um existe desde sempre em todos nós.

Os ‘amantes’ não se encontram finalmente em algum lado, eles estão connosco desde o início. – Rumi

A palavra Yanan evoca o enamoramento, evoca o amor ao nível da ‘alma’, evoca Illawi, o par primordial da Cosmologia Andina.

Nesta visão não existem opostos, apenas relações complementares.

A força do Amor é a mais forte, é a força que flui e cria a vida.

Na união do Amor, torno-me um, mas já não sou apenas eu.

Yanan, evoca a atração invisível dos pares que nunca se excluem mutuamente.

Exemplos: visível e invisível, consciente e inconsciente, mente e corpo, vida e morte, masculino e feminino, micro e macro cosmos, contração e expansão, noite e dia, direito e esquerdo, espírito e matéria, o sonho e aquele que sonha, possibilidade e impossibilidade, etc.

Estas polaridade existem interdependentes e como parte da harmonia do todo.

A dualidade existe na experiência individual. Representa os aspetos mútuos de um todo.

Yanantin é precisamente esta inter-relação que origina a existência. Este potencial dos encontros incessantes contínuos, a pulsação transitória que cria o Agora também provisório que impede uma identificação egoica, mas que expressa uma singularidade em movimento e flexível.

Yanantinkui é exatamente esta condição da relação em movimento, esta tensão da gravidade em todas as coisas, além da sua natureza espiritual ou material; é a agregação da complementaridade. Tinkui é o encontro, a conexão intima.

A vitalidade surge deste vinculo de complementaridade que permite à vida fluir. A vida (Kawsay) vai surgindo de Yanantinkui.

Este mundo em movimento aparece como um fractal repetindo-se infinitamente, emanações aparentemente distintas, mas iguais na sua coletividade. Todos os pensamentos, palavras e ações individuais afetam, como uma força inteligente, todo o universo cósmico.

Nesta continuidade ininterrupta do vinculo das forças complementares se compõe o mundo.

Encontrar o par das coisas é descobrir o ponto zero (ranti).

É aceitar a vibração, a sinergia espiritual que aproxima duas qualidades díspares e as consuma como complementares, interdependentes, não separadas  e não antagónicas (Masintin).

A cosmovisão andina concebe este espaço relacional como vida, o sentido comunitário de Ayllu, a matriz relacional do mundo manifesto, fonte de vida, o potencial do tempo que atualiza, redistribui, diferencia e repete um funcionamento solidário inter-relacional.

Acerca deste funcionamento solidário e do tempo, é também interessante descobrir a matriz da continuidade no amor e no afeto desta cosmologia. Para o povo andino o passado não está nas suas costas e o futuro não está na sua frente. Aliás, eles vêem-se a caminhar de costas para o futuro e na direção do passado pois entendem que os seus antepassados se adiantaram a eles e por isso nenhum passado os atrasa pois o passado caminha já à sua frente. O passado para eles não é uma memória cognitiva, mas um potencial de integridade e de afeto, a matriz do futuro como libertação do agora que já é passado no imediato.

A relação com o passado não é causal, pois o passado emerge da expressão das complementaridades num tempo ilimitado (Wiñay).

Acho interessante, porque esta ideia faz-me desligar da memória daquilo que fui ou da memória daquilo que percebo ser no presente e traz-me para a memória daquilo que nunca deixei de ser. O que não vivi no passado nem no agora é a forma como me vinculo ao mundo, a liberdade de viver como uma parte do universo absoluto e não como um ser exterior ao mundo.

Nós estamos constantemente imersos nesta energia de intercâmbio e por isso devemos investigar como estas energias se formam e se transformam, as associações que estabelecemos na vida.

O universo é uma força neutra, o conceito de bom e mau é uma abstração da verdadeira natureza da paridade relacional. O conceito de bom e mau vem desta necessidade de sermos salvos.

Os opostos existem e não vivem um sem o outro.

Complexidade e simplicidade, perfeição e imperfeição existem ao mesmo tempo, então paremos de nos mentir e encontremos o equilíbrio entre a paridade.

Quanto mais sou o Eu, menos Infinito sou.

A minha prece é que encontremos a coragem, a bravura, a criatividade e a fé necessárias, para assumirmos uma relação profunda e intima com o infinito, chamemos-lhe Deus, Fonte ou Espírito, é a nossa fundação.

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