Neste dia ‘fora do tempo’, oportuno para reciclar, recomeçar e deixar ir, coloco a intenção de sustentar um espaço de abertura e liberdade nesta partilha, que nos permita integrar conceitos aparentemente contraditórios, numa vibração que possa ressoar internamente para o bem maior de todos.
A experiência da morte é uma das experiências mais comuns para o nosso inconsciente e para o nosso corpo, porque acontece em cada momento, em todas as passagens, em todas as transformações.
Morrer evoca o consentimento de todo o nosso potencial para criar vida, para permitir ao grande mistério mover-se em nós.
Dizer sim à vida no meio dos seus problemas mais estranhos e mais duros, faz parte do movimento para honrar a inesgotabilidade da totalidade, porque o desejo mais puro de viver não está enraizado na carência ou na ausência de um objeto ou objetivo que nos garanta uma identidade ou que nos faça sentir vivos. É no ato de morrer que mergulharmos na fonte, retornamos e atualizamos a frequência que nos habita.
Queremos imortalizar a nossa identidade numa forma, e procuramos conquistar prazer infinito, mas a vida não é resultado de uma conquista, é uma rutura, uma abertura ao caos – criação e recriação permanentes.
A vida acontece quando nos expomos à força impessoal e não quando aplicamos a força pessoal para fixar eventos ou circunstâncias.
Encontramos a vida estagnada quando o nosso pensamento se apega aos seres, circunstâncias e objetos, e não ao movimento e ao devir.
A objetividade está no movimento, na tendência, e não na forma.
Perante o desejo de criar algo, precisamos desintegrar-nos, esquecer-nos de nós próprios para aparecermos como fenómeno. A vibração da vida e do pensamento é esta espiral entre pessoal e impessoal, este encontro constante com a abundância primordial.
É imprescindível aceitarmos retornar ao nada, não ter o controlo sobre a vida, aceitar a morte incessante, o desconhecido, para nos abrirmos ao potencial criador que é ativado sempre que a força da vida nos encontra vazios sentindo-se convidada para se mover em nós.
A ideia do eterno retorno é ela própria, um vinculo ao processo da vida.
A todo o momento a força, o devir, continua eliminando o que não resiste e transmutando o que resiste. Para honrarmos a vida e a força criadora em nós, precisamos entregar todas as formas de pensamento, pois não é a forma que cria, mas o movimento, a comunicação com o ato de morrer.
Morrer sem a morte é condição para nos relacionarmos com o vazio fértil e com a emergência de novas dimensões.
O nosso corpo demarca uma identidade psicológica e física, mas o corpo é mais do que isto, é um movimento de abertura cuja vivência é apenas possível quando estamos conectados não apenas com o processo da vida, mas também com o processo de morrer.
O corpo não é um obstáculo à compreensão da morte, pois ele existe na sua complementaridade com o espirito. É no corpo, e através dele que opera esta complementaridade.
Não se trata de finito e infinito ou corpóreo e incorpóreo, mas de uma complementaridade constante. O corpo alterna o ‘repouso’ e o movimento, estando sempre a ser refeito.
O corpo é a expressão das forças e das possibilidades da criação retomando a sua tendência em cada passagem.
O nosso pensamento não nos dá estrutura. A nossa estrutura é apenas uma singularidade móvel. A natureza do corpo é uma força dinâmica de variação continua, em constante atualização da energia potencial.
O corpo não é definido por uma forma, mas por um potencial, e é isso que nos permite interagirmos de forma diferente em cada encontro que a vida nos traz.
Mesmo que a vida pareça estar estagnada, não estamos paralisados, porque a comunicação nunca cessa, entre uma dimensão e outra, a nossa identidade como uma unidade independente, recria-se.
Esta paridade vida e morte não compreende uma recusa, uma exclusão, uma tensão, mas a constante integração e desintegração. Este permanente desequilíbrio é a condição da vida, e não o equilíbrio como algo que possa manter-se fixo. Na impossibilidade de mantermos o corpo como estrutura, comunicamos constantemente para recriar a vida. Este desequilíbrio é inerente e anterior à nossa identidade, porque a forma está em constante devir.
O conhecimento só acontece quando se cumprem estas forças.
A consciência testemunha, apreende as forças da vida, independentemente das formas criadas, e aceita o conteúdo vital como dimensão energética para ativarmos os pares no caminho que escolhemos.
Através do corpo conduzimos a tendência e a forma aparece.
A resistência a morrer impede-nos de devir.
Morrer é ir constantemente ao campo da superabundância e retornar como uma nova singularidade.
Este paradoxo para o nosso pensamento que separa a vida da morte, é o humor deste jogo da vida, entre o sujeito e o objeto, entre a expetativa e a descoberta, entre movimento e forma.
Ser e devir, forma e força são proporcionais.
De facto, agora mesmo, estamos a viver e a morrer. Porque estes dois processos estão sempre interligados, como está interligada a nossa infância, a adolescência, a idade adulta e idosa.
O que chamamos de individuo e de universo não são distintos.
Assim que colocamos distância e separação entre ambos, paramos o jogo da vida.
Não existe uma fonte e a manifestação. Ambos são o mesmo.
Quando procuramos empurrar a vida para se manifestar e manter de determinada forma, sem nos permitirmos morrer, para aparecermos na vibração do que procuramos, é como se puxássemos a flor de uma planta sem nutrir a sua raiz. Pouco importam as nossas formas de pensamento, as influências morais, os princípios e as crenças, quando não fazemos a coisa certa. A vida só acontece com a ação certa. A vida tem de constantemente comunicar com o ato de morrer, este é o movimento de nutrir a raiz para vermos a flor sair da planta.
Não adianta apenas pensarmos, temos de mover-nos.
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