Entre a estabilidade e a impermanência, Ananta – o Infinito

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STHIRA-SUKHAM ASANAM

O ásana deve ser estável e confortável

Hoje trago-vos o aprofundamento de um dos Sutras de Patañjali, o sábio que codificou o Yoga.

Esta elaboração sobre o ásana, vai muito além da indicação sobre como um ásana deve ser.

STHIRA convida-nos a instalar-nos num lugar firme, estável e resoluto

LIVRE DE EXPETATIVAS

SUKHA convida-nos a fazê-lo de forma fácil, agradável e relaxada, num espaço

VIRTUOSO

O ÁSANA convida-nos a sentar, a permanecer, a

HABITAR O PRESENTE

A posição, o ásana deve ser a expressão virtuosa da atenção plena e livre de expetativas.

A ideia de Sthira (firme) e sukha (suave) parecem contradizer-se.

Firme parece querer dizer imóvel e suave parece querer dizer sem esforço.

Parece que não conseguimos conceber firmeza sem esforço e suavidade com firmeza.

Firme é a atenção, o foco no infinito. Suave é a liberdade das expetativas.

Sthira Sukham é a expressão da harmonia cósmica, o corpo a manifestar leveza e estabilidade. Quando permanecemos em qualquer ásana, de forma estável e confortável, sentimo-nos em sintonia com o infinito (samapati). As limitações físicas dissolvem-se e já não flutuamos entre os aspetos físicos e emocionais da posição ou atitude, já não flutuamos entre os opostos.

Sthira, a estabilidade não é permanecer imóvel, mas repousar ou relaxar nos campos de gravidade que mantém o sistema solar e as galáxias na sua órbita, é para nós, repousar no suporte profundo da mãe terra.

Sukha, a suavidade é o alinhamento, é o eixo da roda, no centro, o ponto sem opostos. No ásana encontramos o nosso limite sem atritos. Habitamos o momento e relaxamos. Aqui é o lugar onde grandes transformações podem acontecer.

O limite pode ser o portal direto para Ananta, a expansão sem limites!

Atreve-te a ir além!

Não falo de ásanas complicados, falo de permanecer!

Sentado, habitando o presente.

A estabilidade e a suavidade não vêm do esforço físico, mas da integridade entre a nossa mente e o corpo. É esta integridade que suporta o ásana. No ásana, a permanência é a repetição constante deste alinhamento entre o corpo e a mente. Da repetição emerge a magia.

A terra gravita o sol, o sol gravita a via láctea. O universo dança e, no entanto, tudo ‘permanece’ estável alinhado com os padrões de fluxo da vida.

A vida é movimento. Os corpos celestiais, os átomos, as moléculas gravitam, vibram constantemente.

A estabilidade não inibe o movimento, mas sim harmoniza-o.

Enquanto me sento quieta, o coração continua a bater, o sangue continua a fluir e as células a vibrar.

Libertar o esforço não é adormecer. Libertar o esforço, é despertar, libertar o ego com as suas imposições e identificações, é deixar o movimento natural emergir ao mesmo tempo que nos alinhamos com a gravidade.

Alinhados com a gravidade, todo o cosmos é o nosso suporte. Isto é Ananta Shesha, a serpente ilimitada que suporta o cosmos e todos os planetas na sua órbita, que mantém a terra estável, é a postura, é o ásana onde todo o universo é como um oceano. Esta serpente é como um ‘reminder’ do que permanece após a dissolução dos opostos – o oceano cósmico da consciência sem princípio nem fim, nunca afetado pela forma, pelos gunas da natureza.

Ananta Shesha é a vastidão além da cognição, é o eterno além da impermanência da forma.

Assim que experimentamos esforço e relaxamento, os dois em simultâneo, entramos em sintonia com o nível atómico de funcionamento do universo.

As fronteiras entre nós e o cosmos caem quando esforço e relaxamento, firme e suave deixam de ser opostos.

Sempre que identificamos apenas um dos lados como real, ora o relaxamento, ora o esforço, não conseguimos perceber o todo. O esforço parece contradizer o relaxamento. A estabilidade parece exigir permanência e firmeza e ficamos desapontados.

Estamos habituados a conseguir coisas com esforço, e não a larga-las.

Estamos habituados a manifestar tendências inconscientes, coletivas.

Apesar da memória da dor trazer aversão, é o processo de identificação que origina o sofrimento, não a criação em si.

A criação é o divino doando-se na forma, não a fonte do sofrimento ou do desapontamento.

Para a suavidade emergir, a forma impermanente não deve ser confundida com o ser.

O mundo da forma, a criação, têm o carater da iluminação, da atividade e da solidez. Elementos e sentidos existem visando a experiência da libertação destas tendências isoladas:

Tamas, a tendência para permanecer

Rajas, a tendência para o movimento

Sattva, a establidade, a experiência simultânea destes aparentes opostos.

Dentro da mudança existem modos temporários de estabilidade, no entanto, num nível molecular, o movimento, a vibração é constante e isto contrasta constantemente com a permanência porque a permanência é um processo dinâmico.

Só conseguimos habitar o presente movimentando-nos e é este movimento, este caminho que nos transporta além da forma impermanente para o núcleo, o espaço virtuoso, indiferenciado e eterno.

Quando as camadas mais externas do corpo, como o sistema musculo-esquelético reconciliam os opostos de firmeza/permanência e leveza/relaxamento, isto é sattva. Neste momento auspicioso, com esta atitude virtuosa, conseguimos presenciar os movimentos mais subtis, conseguimos ‘cheirar’ os bloqueios mais subtis no fluxo do prana e até desfazê-los.

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