Hoje venho partilhar convosco as minhas reflexões sobre o pensamento dual ou binário, na realidade sobre como os últimos acontecimentos no mundo me fazem refletir.
Os nossos dias são povoados de pensamentos binários como: sim ou não; preto ou branco; ligado ou desligado; vivo ou morto; verdadeiro ou falso; feliz ou infeliz; positivo ou negativo; predador ou presa; sucesso ou fracasso; interno ou externo, e por aí fora.
Este sistema binário permite-nos comparar e ter algo como referência para suportar as nossas escolhas, os nossos resultados, a nossa experiência subjetiva e até a nossa mente determinativa.
Polarizamos para decidir, excluindo sempre algo (ora afirmamos, ora negamos), mas na realidade esta dualidade refere-se a uma simetria, uma conjugação que se complementa, como o yin e yang e não a uma miríade de julgamentos pessoais sobre o que nos serve ou não.
Enquanto observamos a dualidade, implicitamente expressamos a unidade.
Os opostos interagem no contexto de uma unidade.
Sempre que comparamos coisas, inventamos diferenças.
Se não olharmos para as diferenças não temos mundo.
Mas quando imaginamos algo à luz do que para nós é justo, merecedor ou desejado, sentimo-nos separados daquilo que é. Quando aquilo que escutamos, que vemos com os nossos sentidos não corresponde ao que sentimos, vivemos em confronto.
E nessa confrontação não conseguimos um compromisso mutuo entre os dois lados opostos, que nos permita viver num estado não reativo.
Por exemplo, peguemos no principio da justiça que é algo que na natureza, concretamente não existe. Nós vemos os episódios catastróficos na natureza como injustos e isso leva-nos a questionar o mundo. Qualquer catástrofe obriga-nos a agir porque somos confrontados, mas por outro lado a nossa necessidade de justiça leva-nos a criar ferramentas, códigos de conduta que nos permitam controlar, determinar o que é certo ou errado, justo ou injusto. E depois continuamos quebrando cada um desses códigos e gerando desequilíbrio.
Utilizamos as próprias leis da natureza para explorar os seus recursos esquecendo-nos que estamos ligados à natureza. Utilizamos os códigos de conduta que criamos para controlar, e esquecemo-nos que fazemos parte deste mistério que tudo move.
Muitas vezes ações boas não são notadas ou recompensadas, enquanto o mal continua sem punição. E seguimos como se houvesse algo de errado com o universo. Ao vermos a adversidade como falta da justiça, esquecemo-nos que esta adversidade tem um propósito.
O mundo parece bizarro quando a nossa imaginação difere do que experimentamos, mas de facto, esta polaridade apoia uma mutualidade intrínseca em tudo.
A nossa experiência vem do dom que temos de multiplicar o um e de dividi-lo ao meio também. Esta polarização dual desempenha uma função crucial no nosso mundo. Imaginem ler uma folha em que tudo está branco ou em que tudo está preto. Imaginem uma moeda só com um lado. É este contraste que nos permite compreender o que está à nossa frente.
Esta nossa forma conceptual de dividir o mundo, fundamenta a escolha entre sim e não, entre x e y, como algo absoluto, quando existem muito mais possibilidades se formos capazes de considerar que tudo no mundo manifesto é um verbo, a manifestação de um conjunto de ações continuas.
São essas variantes possíveis que mais tememos porque não estamos habituados a aceder a elas. Mas para acederemos a elas temos de nos libertar da rigidez do que elas possam significar e conviver com a ausência de conceitos capazes de dar significado ou significância a algo.
A lua não existe em oposição ao sol apenas porque simboliza a noite em oposição ao dia. Esta interpretação dualística não indica que ao dia falta a noite ou que à noite falta o dia, ou que ambos se contradizem. Indica apenas que ambos são.
Há aqui um portal, este é o portal da ausência, ausência de contradição entre os opostos.
Esta ausência é uma presença, não é uma negação nem uma afirmação.
Sente esta ausência e serás um com o que realmente é.
Será possível que dois pontos de vista contraditórios possam co-existir? Tem de haver um vencedor e um fracassado? Ou poderá o caminho ser a continuação e quem sabe a evolução?
Realmente o pensamento dual deveria dotar-nos da habilidade de lêr a realidade de uma forma não definitiva, não julgadora, não excluidora das partes que não entendemos.
Quando não dividimos tudo de acordo com o que gostamos ou não, o momento permanece em aberto, deixamo-lo ser, deixamo-lo falar-nos.
Temos tendência para dividir o ser humano em corpo e mente. Sempre que queremos descrever algo precisamos dividi-lo em duas partes ou mais, mas esquecemo-nos que as partes só são o que descrevemos, a sua utilidade, se estiverem em comunhão.
Precisamos desintegrar para descrever, mas também precisamos integrar todas as partes para conhecer.
Tudo no mundo manifesto, emerge de uma divisão que vai criando binários.
A verdade não é uma, mas também não é binária.
Fica com este paradoxo.
Este paradoxo permitir-nos-à polinizar, unindo o sujeito e o objeto numa fragância única.
É esta fragância que nos atravessará despertando a nossa sensibilidade aos sinais subtis da polaridade para compreendermos a interação de tudo, abrindo-nos a todas as possibilidades, atraindo o que é realmente relevante e produtivo para cada momento.
Quando sabemos que há algo que não sabemos, esse conhecimento pode transformar tudo!
Todos conhecemos tudo o que já aprendemos, mas não conhecemos tudo o que sabemos.
Apenas sabemos uma pequena fração do que existe, e isto em si, abre um mundo de possibilidades, de entendimento e aceitação. E que paz nos traz o simples fato de não precisarmos excluir algo em cada momento e passamos a incluir, a aceitar e respeitar mais possibilidades. As nossas relações deixam de ser pautadas pela defensiva e passam a ser autenticas. Sabemos que não temos todas as respostas, ou até nenhuma resposta para o mistério da vida. Aceitamos que existem perspetivas que não conseguimos compreender ou até imaginar.
Mas podemos aprimorar a nossa sensibilidade aos padrões de polarização em cada manifestação para melhor aceitar e co-criar os fenómenos num quadro maior da vida, inspirando e influenciando de uma forma reciproca, lendo os padrões da luz, do vento, que iluminam, que sopram a beleza.
Sinto que a nossa vida coletiva depende desta aceitação, da comunicação e integração de todas as possibilidades.
Esta comunicação é a integridade que expressamos quando as nossas palavras e ações se encontram.
A integridade une as coisas que estão separadas.
A integridade permite-nos afinar a nossa voltagem individual para atingirmos o nosso máximo potencial. A integridade vive no tambor dentro do nosso peito, no nosso coração. Com ela polarizamos e polinizamos a abundância.
Não devemos perder a sensação de abundância apenas porque não possuímos algo, até porque quando possuímos algo, queremos mantê-lo e queremos sempre mais perpetuando o conceito da escassez.
A abundância é um fluxo de integridade, que permanece intacta na presença de qualquer polaridade rival ou competição.
Que possamos prosperar num fluxo de continuidade que não exclui nenhuma estação.
A abundância existe desde muito antes das nossas preferências, não necessita de ser mantida porque a polinização provê. Se não interferirmos, a regeneração repete-se sem competição, num ambiente neutro.
A natureza distribui as sementes da vida necessárias observando as leis da necessidade natural e impessoal de equilibro.
Esta newsletter é dedicada a ti!


