Este é um artigo visa refletir sobre a prática da atenção que beneficia a concentração, e ajuda a tranquilizar e purificar a mente.
No Yoga, não praticamos para fugir ao sofrimento. Nós somos a própria ponte, para transcender o sofrimento e por isso a prática traz-nos a intimidade necessária que leva ao colapso da ilusão da separação entre o sujeito e o objeto, entre nós e outro.
No Yoga, manter um foco ou concentrar a atenção, não é tingir a perceção com toda a nossa bagagem mental, para controlar a experiência.
O controlo, no Yoga refere-se à decisão sobre as nossas prioridades.
No Yoga, o controlo é algo dinâmico e é motivado por uma sinergia entre o movimento da respiração e o foco da nossa atenção.
A prática por isso não visa restringir ou limitar, mas trazer liberdade a tudo o sentimos, a todo o espectro de experiências e a todas as contradições, para transcendermos a oposição.
Sem a nossa intenção pura, a atenção tende a dispersar-se pela nossa agenda particular.
No Yoga, a atenção não é julgar ou catalogar. Aliás, no Yoga, sem entrega dessas condições, continuamos a projetar as nossas complexidades no mundo. Conseguimos entregar, quando o foco está apenas na ação necessária, sem conflito entre o desejo e a aversão.
Manter a atenção não depende de controlar a forma, nem de determinar o significado ou o resultado, mas de aceitar o constante fluxo da realidade, sujeita aos ciclos universais.
Um ásana é mais do que uma forma e a prioridade da estabilidade visa convergir e integrar os opostos em cada experiência.
As emoções são universais e por isso capazes de nos unir. Por isso a prática e o desapego são ambos meios de comunhão para que a mente vá largando a necessidade de oposição.
A prática ajuda-nos a ter coragem, confiança e compaixão. Se conseguirmos fazer da prática, a nossa vida, tornamo-nos Yogarudha, estabelecidos no Yoga.
E esta ausência de conflito é muito bem explicita no Yoga Sutra I.33 do sábio Patañjali, em que são apresentadas 4 chaves, os parikarmas ou Brahma Viharas que visam purificar e estabilizar a mente.
O que visamos é permitir-nos ser influenciados pelo nosso Ser Divino, a influência mais Nobre. O Ser elevado, o Ser Universal torna-se amigo do Ser individual. Esta é a equanimidade em que observamos, ao meio da diversidade e da adversidade, um ritmo que permeia tudo, que permeia todas as relações. A serenidade é mantida em todas as circunstâncias, na companhia de todos.
Yoga Sutra 1.33: maitrī-karuṇā-muditā-upekṣānām sukha- duḥkha-puṇya-apuṇya-viṣayāṇām bhāvanātaś citta-prasādanam
Cultivando sentimentos amigáveis e de celebração em relação àqueles que são felizes, compaixão por aqueles que sofrem, boa-vontade diante dos virtuosos e indiferença ou neutralidade em relação àqueles que percebemos serem perversos e malvados, purificamos e estabilizamos a mente.
Esta prática ajuda a uma radical transformação dos samskaras, das impressões latentes na mente, e vai criando uma distância entre impulso e reação. As adversidades continuarão a acontecer, mas a discriminação e o desapego permitir-nos-ão lidar com os problemas, e realmente chegar ao núcleo da honestidade, ao reconhecermos que o que se manifesta é aquilo em que nos focamos. A mente é cristalina por natureza, permitindo-nos hospedar em si os dois lados, a atração e a aversão, mas o que vemos no mundo é o que está dentro de nós. Esta é a derradeira honestidade.
Por isso é tão importante cultivar e contemplar sem medida, e incluir-nos:
Maitrī, amizade ou amabilidade. Diante do universo, somos infinitos, nada é desprezível. A amizade não vem da condição de compensar algo, mas do sentido de pertença, de ser humano.
Karuṇā, compaixão ou apoio, ação sem envolvimento, independente da condição, da incerteza, ou do merecimento. A compaixão que não é motivada pelo sofrimento no outro, mas pela perceção da beatitude (ānanda) em nós. A lembrança de que somos a perfeição da unidade.
Muditā, alegria ou boa vontade, empatia ou apreciação além da competição entre os opostos, independente do nosso processo interior. A alegria que beneficia a prosperidade para todos.
Upekṣā, indiferença que não é desinteresse, mas ausência de julgamento. Perante sukha – o que é prazeroso ou desejável, e duḥkha, o que é desagradável ou indesejável, a equanimidade é a aceitação em ação.
Gostaria de trazer mais um Yoga Sutra pertinente para esta reflexão:
Yoga Sutra 2.33: vitarka-bādhane pratipakṣa-bhāvanam
Quando a negatividade nos assombrar, contemplamos a atitude oposta.
A atenção plena sobre as nossas escolhas.
Este oposto, não se trata de recusar o que sentimos, mas de decidir largar o velho e abrir-nos a novos horizontes. Este oposto confirma a atenção e a intenção de elevar a nossa vibração. Equivale a perguntarmo-nos qual será a resposta positiva a isto? O que pode acontecer se cultivarmos gratidão e apreciação? Os nossos pensamentos têm o poder de mudar a nossa realidade e para mudarmos essa realidade necessitamos de novo de praticar equanimidade e desapego, que anunciam sempre tranquilidade e prosperidade. Através da aplicação deste sutra, que não se trata de uma negação, mas de uma afirmação, aprendemos a comunicar com a nossa paisagem interna de forma a remover a energia estagnada e acender de novo a nossa jornada.
A prática disciplinada inevitavelmente revelará os nossos velhos padrões e os impulsos não criativos de confronto ou fuga, e esta é sempre uma oportunidade para a derradeira honestidade (Ārjavan), para alinhar a nossa linguagem com o dharma, o sucesso do bem maior.
Uma vida mais simples é uma vida mais feliz. Esta felicidade nada exclui. Nesta simplicidade nada compete entre si, nada precisa de defesa ou de ter razão. Esta simplicidade é a luz da equanimidade.
Todo o Universo se rende a uma Mente Calma.
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