Na cicatriz, a revelação dos obstáculos – os Kleshas

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No Yoga de Patañjali, existem 5 obstáculos, 5 aflições (Kleshas) que impedem de nos reconectarmos com o nosso ser verdadeiro.

  • Avidya (ignorância ou ilusão do Ser separado do universo);
  • Asmitá (identificação do Ser com o transitório);
  • Raga (as paixões ou apegos, a expetativa, e a competição);
  • Dvesha (a aversão, a negação e a comparação) e
  • Abhinivesha (o medo da morte ou apego à vida)

Passam os dias e os anos e parece que nos encontramos sempre num processo de recuperação ou perdão nas nossas vidas. Experiências que pensávamos ter deixado para trás voltam uma e outra vez enquanto procuramos cicatrizar as feridas, sem olhar para dentro delas, sem mergulhar nos padrões ou samskaras, sem realmente olhar para o que a experiência quer revelar sobre nós mesmos, sobre o que quer realmente manifestar-se. É verdade que após cada desafio, saímos mais fortes e mais resilientes, mas o que é que aprendemos com a dor e o desconforto?

As lições de fé vieram da dúvida. As lições de compaixão vieram da dôr. As lições de coragem vieram do medo. A perceção da beleza veio da ausência de graça.

Mas porque é que não conseguimos ver os padrões, os hábitos que se repetem, ou os samskaras?

Os samskaras representam uma ordem, digamos que são um processo de cultivo para iluminar a alma, por isso devemos criar padrões adequados.

Remover bloqueios é libertar a mente de memórias e hábitos emocionais.

Por exemplo a memória da dôr leva à aversão e negação (Dvesha), mas é o processo de identificação que traz sofrimento, não a criação e a destruição.

O impermanente não deve ser confundido com o Ser intemporal.

As ações produzem frutos, os frutos produzem sementes ou tendências (vasanas). Estas sementes mantem-se connosco como uma espécie de motivação. Nós procuramos que as nossas experiências sejam o mais agradáveis possível, mas na realidade, não alcançamos a causa dos desafios ou dificuldades que se repetem.

Mas assim que a atitude adequada emerge, também as sementes se tornam autossustentáveis, criando doçura, honrando os ritmos e a mudança, sem medo de perder a identidade.

Por trás de cada vasana, está o desejo de viver, a expetativa de desfrutar (Raga) e isso, por si só revela um nível fundamental de insegurança, o medo da morte (Abhinivesha). A vontade de viver, o envolvimento com os fenómenos externos, criam a motivação para as nossas ações. As nossas motivações criam um efeito. É a ilusão da separação (avidya), a limitação da existência a um nome e a uma forma, a raíz do medo. Normalmente nenhuma decisão fundada numa insegurança ou no medo, é a melhor decisão. Sempre que sattva ou o equilibro, não está presente, existe a possibilidade de erro ou confusão.

Por isso é tão importante cultivar equanimidade, transparência, ou seja, Ser e Agir sem agenda.

Os vasanas impelem-nos para agir e nós agimos de acordo com os hábitos. Como se diz: “nós somos animais de hábitos”, portanto não é a atitude de repetir que nos aflige, mas as tendências que confundem a nossa motivação.

Como podemos entrar em contato com a nossa motivação interna? Inacreditavelmente, o link é o ego, neste caso, asmitá. A palavra asmitá refere-se a ‘quando duas coisas se confundem como uma’. Quando essas duas coisas são a mente e os objetos dos sentidos, então asmitá é um Klesha ou uma aflição, que vem da imposição de limites à expressão única do infinito sem forma, em cada um de nós. Mas quando esses dois aspetos são a mente e a consciência (Purusha), asmitá torna-se um canal de comunicação com a verdadeira motivação e o verdadeiro propósito, e a experiência é além da existência.

Só por curiosidade, o termo ahamkara também usado como ego, é a ilusão no que diz respeito à ação. A imposição, sobre a consciência sempre pacífica, de um agente ou doador da ação, é ahamkara. Isso dá origem à noção do “eu” em primeiro lugar causando avidya, a ignorância.

A mente aprende através de hábitos, por isso alterando os hábitos, alteramos a mente. O Yoga é um caminho para iniciar esta mudança, é a preparação.

Somos constantemente condicionados pelos estímulos externos, pelo nosso estado mental, pelo apego ao resultado das nossas ações e pelo equivoco acerca da causa original, tudo isto bem reforçado pelas nossas tendências e hábitos.

O passado e o futuro estão sempre latentes no presente. É por isso que os alicerces do Yoga de Patañjali são os Yama e Nyama (que nos ajudam a gerir a forma como nos relacionamos connosco e com o mundo – hábitos que purificam). É por isso que no Bhagavad Gita é dito que cada ação pode tornar-se um ato de purificação, ou melhor uma consagração, tudo depende do nosso estado mental e das circunstâncias.

Porque é que o passado e o futuro estão presentes ao mesmo tempo? Por causa dos gunas (sattva, tamas e rajas). Em qualquer momento o que vemos é uma combinação dos 3 gunas, com predominância de um. A mesma coisa é vista de formas diferentes por causa dos diferentes estados mentais (luminoso, disperso ou estagnado). Cada mente tem também os seus hábitos ou samskaras. Uma mente satvica tem clareza e capacidade de discriminação (viveka), conseguindo aceitar diferentes perceções sem se sentir ameaçada.

A qualidade da perceção depende da qualidade da mente, porque aquele que vê (Purusha), fá-lo através da mente, a mente é apenas um objeto observável. O conteúdo mental e o corpo mudam durante a vida, mas há algo constante que observa a mudança e acompanha os seus padrões. Normalmente estamos inconscientes deste observador. Apenas podemos experimentar aquele que vê quando a mente se torna o seu receptáculo (fica repleta, saturada da consciência-Purusha). A mente é parte do que é observado, tal como os sentidos e os objetos externos.

Quando a mente,  transparente e recetiva por natureza, reflete a consciência, a perceção do fluxo continuo e subtil de mudanças, é vivida como um eterno agora.

A sincronicidade torna-se visível.

O Guna predominante na mente é sempre rajásico. Sattva tem de ser cultivado. No Yoga, o pranayama é a principal pratica para cultivar sattva na mente. Quando mais intimidade com a respiração e a força da vida, mais impessoal, mais testemunha, mais voltada para dentro e livre de agenda se torna a experiência da existência.

Quando realmente nos tornamos um com a nossa essência, não precisamos mais de buscar ou perguntar o que é a alma? Só existe busca até haver conhecimento. Quando houver conhecimento, deixa de haver busca.

Todos nós temos o samskara correto da consciência, mas existem interrupções. Todos nós temos apego à clareza e aos frutos da clareza, mas eventualmente até o apego à clareza deve cair, porque na realidade não há nada a ser conhecido, nada a ser buscado, nada a ser ganho e nada a ser realizado. Após a transformação dos kleshas, os vasanas já não estão ativos, as sementes foram queimadas, e os padrões dos gunas deixaram de nos afetar.

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